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23 novembro, 2006

“O Céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam”

Senhora do Supermercado, Duane Hanson, 1969

Esta escultura evidencia uma realidade diferente da vida do limpa-vias e da sua família. Na aula estivemos a imaginar o valor do carrinho de supermercado da senhora e imaginamos a quantidade de coisas que ela leva e que não precisa. Concluímos que ela não deve ter dificuldades económicas, mas que isso não quer dizer que não tenha um baixo nível sociocultural. Na aula, não tivemos tempo de reflectir sobre esta questão:
De que modo esta escultura pode (ou não) contrastar com a frase final do conto Arroz do Céu?

Multidão

Multidão, Magdalena Abakanowicz (1986/1987)

Em Língua Portuguesa, e ainda a propósito de Arroz do Céu, estivemos a observar estas esculturas.
Por que será que elas não têm cabeça?
Foram lançadas para a mesa várias hipóteses: uns acharam que as pessoas eram muito feias e por isso a artista preferiu não esculpir as cabeças; outros disseram que era para mostar que somos todos iguais; outros consideraram que era para mostar que eram pessoas irresponsáveis (sem cabeça).
No entanto, e como se pretendia relacionar esta obra de arte com o Arroz do Céu, concluímos que as cabeças não foram esculpidas para lhes retirar importância, estas pessoas representadas são vistas como uma massa de gente toda igual, que apenas serve para o trabalho braçal.

Arroz do Céu: a oração do Limpa-vias


"O limpa-vias nunca perguntou donde é que chovia tanto grão, sobretudo no bom tempo, pelo Verão, e aos domingos, que até parecia uma colheita regular. Embrulhava-o num jornal ou metia-o num cartucho, e assim o levava à família. (…)E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. (…) E começou a rezar-lhe fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do Céu... “ (José Rodrigues Miguéis)

Algumas possíveis orações do limpa-vias...

Arroz nosso que cais do respiradouro,
abençoado seja o vosso paladar,
venha a nós o vosso arroz
e que seja cozinhado à nossa moda,
assim no subway como no Alto.
O arroz nosso de cada dia nos dai sempre.
Perdoai-nos os nossos estrugidos,
assim como nós perdoamos a quem nos paga mal
e não deixes de mandar arroz agulha,
mas livra-nos do trinca.
Raquel

Arroz nosso que cais do céu,
certificado seja o teu sabor,
fazemos nós o teu tempero
com cebola, alho e azeite,
mas arroz com arroz é pouco,
vê se me mandas
bacalhau, massa e frango,
porque de tanto arroz já estamos enjoados.
Miúdos eu tenho para criar
e só de arroz não os posso alimentar.
Beatriz, Rute e Xana

Arroz que estais no céu,
Saboroso seja sempre o vosso tempero.
Continua a vir a nós todos os dias,
mas vê lá se começas a enviar mais coisas.
Queremos batatas, massa e bacalhau.
Seja feita a nossa vontade,
aqui no Subway como no Uptown.
Livra-nos do bicho do arroz e da humidade,
Venha ao nosso estomâgo mais variedade.
Ivo, Carlos e Rúben

Arroz nosso que estais no Céu, agradeço a chuva de arroz que me mandas todos os dias. Sem ti passavamos fome. Obrigado pelo alimento que nos envias. Os meus dias têm sido melhores desde que comecei a chegar a casa com os bolsos cheios dessas pérolas maravilhosas a que alguns chamam arroz.
Débora, Andreia e Soraia.

Pai nosso, obrigado pelo que nos tens dado todos os dias. A tua ajuda tem servido para alimentar a minha família. Sem ela não conseguiriamos sobreviver. Tu és para nós uma caixinha de surpresas, por isso agradecemos-te por tudo o que nos tens dado. Eu queria fazer -te um pedido muito importante, podes transformar a chuva em leite e a neve em pão? Que achas?
Obrigada pela compreensão.
Sara e Sandra

Arroz que vindes do céu, quero-vos agradecer porque me estais a ajudar imenso. Nosso grande pai desconhecido, queremos que nos ajudes sempre, porque o arroz que vós mandais está a tirar-nos a fome. Muito obrigado
Marisa e Sandra

22 novembro, 2006

Lisboetas

A propósito de Arroz do Céu, um conto de José Rodrigues Miguéis, que estamos a estudar em Língua Portuguesa, parece-me oportuno observar o trailler deste documentário. Lisboetas é um documentário político sobre a vaga de imigração que nos últimos anos mudou Portugal. Em baixo, algumas das situações que podemos observar no trailler.

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS E FRONTEIRAS
É o local por onde todos os estrangeiros têm de passar para se poderem legalizar.
– O senhor fala português, sim ou não??
– O que é que esteve a fazer tanto tempo na Ucrânia?

CAMPO GRANDE – MERCADO DE TRABALHO
Todas as manhãs os empreiteiros da construção civil procuram mão de obra barata para as necessidades do dia ou do mês…
– Quanto paga, mais ou menos?– Não sei. Primeiro ver, depois pagar. Precisa ver e depois dizer : tu mereces tanto. Quer, quer… Não quer...

AULA DE PORTUGUÊS NA IGREJA UCRANIANA
Nas aulas aprendem-se a conjugar verbos com utilidade prática:
– Eu fui aldrabado; tu foste aldrabado, ele foi aldrabado…

MÉDICOS DO MUNDO
Uma carrinha circula todas as noites por Lisboa para prestar apoio médico aos sem abrigo. Grande parte são ucranianos.– Profissão?– Piloto de aviões.

CARTAS ÀS RÁDIOS E JORNAIS
Jornais e rádios de várias comunidades estrangeiras em Lisboa recebem diariamente cartas dos leitores.– No banco disseram-me que como estrangeira não posso ter livro de cheques. A verdade é que gostam do nosso dinheiro, mas de nós, não!

TELEFONEMAS
Ligar para casa é quase um ritual para todos os imigrantes.
– A escola?... Bem, aqui em Portugal há muita coisa boa... Eu estou na praia, faz sol, o mar é óptimo. Tenho trabalho… Mas a escola aqui é mesmo um problema. Muito fraca.

19 novembro, 2006

14 novembro, 2006

Descobre as diferenças

Antes de ler o conto "Arroz do Céu" de José Rodrigues Miguéis, vamos olhar com olhos de ver para este dois quadros. O primeiro quadro é de Domingos Rebelo e o segundo de Tomás Vieira.



Os emigrantes de Domingos Rebelo, 1926
Os regressantes de Tomaz Vieira, 1987